segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

ARREMEDO DE GENTE


Vocês sabem o que é uma criatura? Segundo o dicionário é um ser ou coisa resultante de criação. E aquilo era uma criatura. Era do sexo masculino, mas chamá-lo de homem, como sendo um exemplar de ser humano era difícil. O cara não servia como exemplo, mas se achava exemplar. Em seu próprio e distorcido julgamento, era o melhor dos cidadãos, o bambambã, o poderoso... mas, quem dedicasse alguns minutos em analisá-lo atentamente, veria com clareza que ele era um fraco.
Para começar, ele não tinha palavra. A palavra empenhada durava o tempo exato entre o ato de ser proferida e a melhor oferta. E quando ele percebia que havia falado demais? Aí se acovardava, negava o que havia dito, ou até escrito. Um desses ataques de acovardamento aconteceu quando a atual síndica do prédio onde ele morava cobrou a dívida do condomínio. O síndico anterior fora ele, até ser sumariamente deposto do cargo. O grande senhor achou um abuso! Desta forma ele perderia a pose de bacana. Ele era tão bom nisso, fazer pose de bacana. Estava cheio de dívidas, mas gostava de passar o dia circulando de carro, falando no celular e dando ordens aqui e acolá.
No antigo emprego também foi assim, e no anterior também. Parecia o patrão, até que a mordomia acabou, perceberam a fraude que ele era e o demitiram. Trabalho mesmo não era com ele, o que ele gostava era da pose I got the power. Irado com a síndica, ele digitou uma carta ofendendo a mulher de tudo quanto era nome. Ela pagaria caro pela ousadia. Ele, muito esperto, não assinou o papel e o colocou, em ocasião oportuna, por debaixo da porta do apartamento dela. Sorriu satisfeito. Ninguém poderia afrontá-lo daquela maneira. Ele era o cara! Agora ela saberia com quem estava mexendo.
A mulher, dentro da sua razão e do seu direito, entrou com uma ação por danos morais. Tremendo feito gelatina, o homem – ou melhor, a criatura -, correu para o colo da sua advogada. Era ela quem sempre limpava o rastro de lambança que ele deixava. Orientado pela advogada, ele, diante do juiz e da vítima, negaria tudo. Qualquer um poderia ter digitado a carta para incriminá-lo. Qualquer um poderia ter posto a carta por sob a porta da casa da mulher. Negaria até o fim. Se achou muito esperto. Contava para todo o mundo a sua proeza. Inchava de orgulho, parecia um baiacu. Coitado do peixe, ser comparado com tão patética criatura. E o idiota se achava toda vez que comprava filme pirata, quando servia de laranja para corruptos como ele e, por se achar melhor que todo mundo, ainda escarnecia de quem ganhava a vida de forma honesta.
Eram essas as lições que ele passava aos filhos e filhas. Em uma ocasião deprimente, gritou com uma menina que vendia doces no estacionamento do supermercado porque o interrompeu enquanto ele enchia o porta-malas do seu carro com suas ricas compras de mês. Ele era tudo, ela não era nada...
O ter era a vida dele. Dinheiro era tudo; moral, amor, fé, eram besteira. O ser não importava. E ele era um ser tão vazio, que quando não tinha dinheiro para gastar, pensava em suicídio, ficava desesperado, mas não aprendia lição alguma. E são pessoas como ele que gostam e acham que têm muito a ensinar. Pobres criaturas errantes, com seus valores distorcidos que se negam a ver o que a vida tem a ensinar. Exemplos vivos do que não devemos ser e se houvesse algum remédio para esse mal, eu só consigo imaginar um: a humildade.


by Lucia Andrade

“Primeiro o reino de Deus e a sua justiça. No mais, tudo lhe será dado por acréscimo.”  Mt 6:33

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