quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

UMA CAIXA DE PRESENTES VAZIA



Faltavam poucos dias para o Natal e a menina aturdia-se por não poder comprar o presente para a prima que se recuperava de uma grave pneumonia. Sua família era muito pobre e ela, a mais velha dos três irmãos, era quem mais sentia o peso da pobreza, uma pobreza que esmagava.
O pai trabalhava, e muito, mas era um trabalho mal remunerado e que dava apenas para saldar as despesas principais da casa. A mãe lavava e passava a roupa de outras famílias para ajudar com alguma coisa e poder tomar conta dos filhos pequenos. Todo o dinheiro extra que seus pais ganhavam no final do ano, era para comprar calçados, alguma roupa e o que sobrava, era usado para finalizar a obra da casa, que nunca acabava. Os tijolos ainda aparentes, o chão de cimento grosso, laje apenas nos dois quartos e o terceiro ainda no alicerce.
O Natal era sempre passado junto à família do irmão de sua mãe. Era lá que morava a prima querida, a estudiosa e exemplar Ana, um modelo de pessoa e amiga para a menina Catarina. Era como Ana que queria ser quando crescesse. A moça que muito se esmerava em estudar para ter um futuro melhor. Catarina amava seus pais, porém, sabia que estavam presos em um círculo vicioso difícil de sair. Adultos, pobres, com filhos e uma casa para manter e com quase nenhum estudo. E ela não queria isso para ela, então, espelhava-se na prima e sempre que podiam, ambas passavam horas conversando e lendo. Ana emprestava livros para Catarina e esta, por sua vez, os lia avidamente e sonhava com uma vida melhor.
Mas, naqueles dias, ela só conseguia sonhar em conseguir um presente para sua querida prima. Ana acabara de sair do hospital e Catarina queria muito dar-lhe um belo presente, mas não tinha nada em seu cofrinho além de duas moedas de cinquenta centavos. Foi caminhando pela rua em direção à casa de uma vizinha para a qual sua mãe lavava roupas, rezando em seu íntimo para que um presente caísse do céu. Na volta para casa, viu na calçada uma caixinha de papelão vazia que fora jogada fora. Pegou a caixinha e teve uma idéia.
Na véspera do Natal, ela correu, ansiosa, até o quarto da prima com a caixinha embrulhada para presente. Usara as duas moedas de cinquenta centavos para comprar o papel de presente. Sabia que Ana a entenderia. Vendo a ansiedade da menina, todos seguiram para o quarto logo atrás dela. Quando Ana abriu a caixinha, viu que não tinha nada dentro. Considerou que o presente era a própria caixa.
            - Que lindo, Catarina! Vou usá-la para guardar meus brincos. – A mãe de Ana, que só conseguia ver o lado ruim de tudo, diante da caixa vazia logo falou:
            - Que idéia, Catarina! Uma caixa vazia... Isso não é presente que se dê.
            - Mas eu a achei linda. É um excelente porta-jóias. – disse Ana, tentando agradar a prima. Catarina apressou-se em explicar, tendo a certeza de que a prima entenderia.
            - O Natal é uma época de renascimento, então, quando vi essa caixa, pensei em você. É como se, neste Natal, depois de sair do hospital, você estivesse renascendo. Uma nova chance foi dada a você. E essa caixinha simboliza isso. Você pode olhar para dentro dela e ver o que você quiser: um novo futuro, tendo a experiência do que fez de errado no passado, de como acabou ficando doente, e modificando algumas coisas para que isso não aconteça de novo no futuro. No vazio da caixa podem estar todos os seus sonhos ao mesmo tempo em que você pode jogar todas as suas dores dentro do vazio dela, tampar e se libertar para sempre. Ao ver a caixa, percebi que há muitas pessoas, que assim como eu, não têm condições de fazer uma ceia farta e compartilhar do consumismo que impera nesta época, então, eu me apeguei ao que o Natal realmente simboliza, que é o nascimento de Jesus Cristo e não todo o resto. E Jesus nasceu pobre e sem nada. Talvez se todos nascessem assim, o mundo fosse um lugar melhor porque o ser seria mais importante do que o ter. E você, Ana, sempre foi especial para mim.
Ana entendeu perfeitamente a intenção da menina e a abraçou com todo o carinho e amor que sentia naquele momento.
            - Esse foi o melhor presente que eu já recebi na minha vida. Sempre que eu olhar para a caixinha, vou lembrar de você e do que ela significa. Vou sempre olhar meus sonhos aqui dentro. Vou abri-la para as coisas boas e fechá-la para as coisas ruins. Você tem razão, Catarina, a gente se preocupa demais com o que temos e com o que não temos e esquecemos que Jesus, o homem mais falado de toda a História, nunca teve nada a não ser a sua palavra e seus ensinamentos. E a gente sempre esquece o que ele ensinou.
Todos ao redor se abraçaram. As primas choravam, emocionadas, mais amigas do que antes, numa mútua admiração. A caixinha foi colocada ao pé da árvore de Natal e Ana fez questão de deixá-la aberta, para que qualquer um pudesse ver seus sonhos quando quisesse.

by Lucia Andrade


Imagem extraída de: pt.dreamstime.com

Um comentário:

Pink disse...

Que mensagem linda amiga !



Como foi seu Natal, passou onde ?Eu as 21hs ja estava na cama -6° so dava p ficar em baixo das cobertas mesmo!

Bjs