quinta-feira, 20 de setembro de 2012

OS DOIS LADOS DA TÃO FALADA "PACIFICAÇÃO"


Algumas pessoas já haviam solicitado que eu falasse das Unidades de Polícia Pacificadora em um dos meus blogs, mas, confesso, não queria muito falar sobre isso, até por não conhecer a fundo o assunto e por ter amigos nessas comunidades. Porém, no ano passado, fui convidada a fazer parte da equipe da Carretinha da Saúde do Morhan e, para esse trabalho, eu teria que visitar todas as UPP. Começamos com uma atividade na UPP do Salgueiro. Depois vieram as visitas à UPP Formiga e Turano. Nessas três ocasiões tive a oportunidade de ver pessoalmente, que NÃO EXISTE PACIFICAÇÃO. Existe sim, uma tentativa de domínio pelo uso da força, o que, sabemos, dificilmente dará certo. Me senti entre Israel e Palestina. Cada um dos lados tem seus motivos para continuar resistindo.
Vi soldados empenhados em fazer o melhor possível, dia a dia, resistindo à resistência da comunidade. Chegamos na UPP Formiga em um dia sem água porque alguém interrompeu o fluxo da água. Me lembrei dos filmes de faroeste, com índio e mocinho, do Forte Apache, cercado, e os soldados resistindo bravamente. Pediram desculpas por não poderem oferecer água e café. Fomos muito bem tratados e ambos os lados estavam convictos de que estavam do lado certo. No meio disso, os líderes comunitários, tentando fazer uma ponte entre um lado e outro. E também acreditando piamente no que estavam defendendo. Mas aí eu senti um aperto no coração. Fiquei pensando o que aconteceria se o governo mudasse e o projeto das UPP fosse abandonado? A gente sabe, sai governo, entra governo, muda secretário, e o que aconteceria com aqueles que tentaram seguir a vida, intermediando os dois lados deste conflito? Fiquei com medo, por eles – já foram 3 policiais mortos e vários civis. Do outro lado, existe a comunidade que não quer ser dominada. E não é porque quer favorecer ao tráfico e não somente por medo deste. Vi que a comunidade quer ser livre, quer ter paz, mas não à força. O próprio termo polícia pacificadora me soa estranho. Arma e paz parecem coisas divergentes, incongruentes. Penso que a paz vem com igualdade social e isso ainda não existe, nem no Rio de Janeiro, nem no resto do Brasil. A sociedade brasileira ainda não alcançou esse patamar. Quem tem mais quer mais e quem tem pouco, tá ficando com nada. Existe uma nuvem carregada no ar. Dá pra sentir. Todos esperam, observam... e qualquer fagulha detona a bomba.
Antes mesmo de saber que eu faria um trabalho nas UPP, eu li, no ano passado uma entrevista no jornal O Globo, do Secretário José Mariano Beltrame. Confesso que gostei muito do que li – sei que muita gente vai cair matando por eu falar isso, mas é a minha opinião. Quando estive no Salgueiro, o Beltrame tava lá. Não resisti, precisava olhar nos olhos dele e saber se o que ele havia dito na entrevista era sincero. Fui até a Rita, esposa dele e ela me levou para falar diretamente com ele. Conversamos por alguns minutos e eu olhei dentro dos olhos dele e posso dizer, que a sinceridade que senti nele, não é a mesma que senti quando vi o governador Sérgio Cabral falando. Hoje, digo a vocês, que cada um dos lados aposta todas as suas fichas na causa que está defendendo, até às últimas consequências, mas somente o futuro dirá quem vencerá esta guerra.
Aproveito para deixar aqui meus agradecimentos ao Comandante Plínio Cesar, ao Sargento Frossard, ao Tenente Henrique, ao Capitão Beltran, e a todos os demais pela atenção dispensada, pelo empenho em colaborar com o trabalho da Carretinha da Saúde do Morhan, projeto do qual decidi sair por divergências internas.