segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

MENSAGEM DE NATAL 2013 - O QUE É VIRTUAL?

Um dia eu me juntei a um amigo e ambos pegamos nossas respectivas mochilas, enchemos de roupas de frio usadas, porém em bom estado e fomos atrás de moradores de rua para distribuí-las, pessoalmente em uma noite fria. Distribuímos as peças e acabamos ficando mais tempo com um grupo de quatro - três homens e uma mulher - moradores sem teto nos quais a insanidade ainda não havia feito morada. Eram eles Leila, Afrânio, Renato e Antônio. Três deles dependentes químicos, mas um deles, nordestino, estava ali porque havia perdido o emprego e, com isso, a possibilidade de ter um teto. Já passava das 21 horas e eles ainda não tinham comido nada naquele dia. Juntamos, eu e meu amigo, os trocados que tínhamos nos bolsos e compramos um salgado pra cada um. A gratidão deles veio em forma de oração. Fizemos uma roda e a Leila pediu:
- Senhor, eu não tenho nada, apenas esse corpo que a ti pertence, mas peço que proteja esses nossos amigos que nos trouxeram o alimento de hoje.
Eu nunca mais esqueci dessas palavras nem dessa noite. Apesar de os rostos deles terem ficado gravados na minha memória, eu nunca mais os vi novamente. Sonho ainda em um dia poder fazer uma ceia para os moradores sem teto porque nesta época de puro consumismo, eles se tornam ainda mais invisíveis para a sociedade que mergulha em um mundo de faz-de-conta.
Feliz Natal, Leila, Afrânio, Renato e Antônio, onde quer que vocês estejam.
Agora, por favor, saia do mundo virtual por alguns minutos e leia a mensagem abaixo.


Entrei apressado e com muita fome no restaurante. Escolhi uma mesa bem afastada do movimento, pois queria aproveitar os poucos minutos de que dispunha naquele dia atribulado para comer e consertar alguns bugs de programação de um sistema que estava desenvolvendo, além de planejar minha viagem de férias, que há tempos não sei o que são. 

Pedi um filé de salmão com alcaparras na manteiga, uma salada e um suco de laranja, pois afinal de contas fome é fome, mas regime é regime, né?
Abri meu notebook e levei um susto com aquela voz baixinha atrás de mim:
-Tio, dá um trocado?
- Não tenho, menino.
- Só uma moedinha para comprar um pão.
- Está bem, compro um para você.

Para variar, minha caixa de entrada estava lotada de e-mails. Fico distraído vendo poesias, as formatações lindas, dando risadas com as piadas malucas. Ah! Essa música me leva a Londres e a boas lembranças de tempos idos.
- Tio, pede para colocar margarina e queijo também?

Percebo que o menino tinha ficado ali.
- OK, mas depois me deixe trabalhar, pois estou muito ocupado, tá?
Chega a minha refeição e junto com ela o meu constrangimento. Faço o pedido do menino, e o garçom me pergunta se quero que mande o garoto ir. Meus resquícios de consciência me impedem de dizer.  Digo que está tudo bem.
- Deixe-o ficar. Traga o pão e mais uma refeição decente para ele.
Então o menino se sentou à minha frente e perguntou:  
- Tio, o que está fazendo?
- Estou lendo uns e-mails.
- O que são e-mails?
- São mensagens eletrônicas mandadas por pessoas via Internet.

Sabia que ele não iria entender nada, mas a título de livrar-me de maiores questionários, disse:
- É como se fosse uma carta, só que via Internet.  
- Tio, você tem Internet?  
- Tenho sim, é essencial no mundo de hoje.
- O que é Internet, tio?
- É um local no computador onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar, trabalhar, aprender. Tem tudo no mundo virtual.
- E o que é  virtual, tio?

Resolvo dar uma explicação simplificada, novamente na certeza que ele pouco vai entender e  vai me liberar para comer minha refeição, sem culpas.
- Virtual é um local que imaginamos algo que não podemos pegar, tocar. É lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer. Criamos nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos que fosse.
- Legal isso. Gostei!
- Mocinho, você entendeu o que é virtual?
- Sim, tio, eu também vivo neste mundo virtual.
- Você tem computador?
- Não, mas meu mundo também é desse jeito... Virtual.

Minha mãe fica todo dia fora, só chega muito tarde, quase não a vejo.  Eu fico cuidando do meu irmão pequeno que vive chorando de fome, e eu dou água para ele pensar que é sopa.
Minha irmã mais velha sai todo dia, diz que vai vender o corpo, mas eu não entendo, pois ela sempre volta com o corpo.
Meu pai está na cadeia há muito tempo.
Mas sempre imagino nossa família toda junta em casa, muita comida muitos brinquedos de Natal, e eu indo ao colégio para virar médico um dia.
- Isto não é virtual, tio?

Fechei meu notebook, não antes que as lágrimas caíssem sobre o teclado.
Esperei que o menino terminasse de literalmente 'devorar' o prato dele, paguei a conta e dei o troco para o garoto, que me retribuiu com um dos mais belos e sinceros sorrisos que eu já recebi na vida, e com um 'Brigado tio, você é legal!'.
Ali, naquele instante, tive a maior prova do virtualismo insensato em que vivemos todos os dias, enquanto a realidade cruel rodeia de verdade, e fazemos de conta que não percebemos!
Você agora tem duas escolhas:
1 - Abrir os olhos para a dura realidade que nos cerca, arregaçar as mangas e tentar mudar alguma coisa, ou...
2 - Continuar vivendo alienadamente neste nosso mundinho virtual e enviar lindas mensagens de Natal para os amigos.

Se o significado do Natal ainda mora no seu coração, mude o mundo em 2014 e comece olhando para os lados, para o próximo, de verdade.