segunda-feira, 19 de junho de 2017

FELIZ ANIVERSÁRIO, TERRA!



Vlog do Escritor – Oficina de Contos 13 por Henry Bugalho



por Lucia Andrade

Sim, sem dúvida, era uma flor, pequena e tímida, surgindo sobre aquela terra nova e fértil. Os olhares de ambos se encontraram e lágrimas brotaram dos olhos dela.

- Você encontrou isso pra mim? Uma flor!

- Eu faria tudo por você, sempre. Eu te amo. Eu sabia que esse era o presente que você mais queria, em toda a sua vida. Feliz aniversário! - ela não se conteve mais e o abraçou, e o beijou. E ficaram abraçados por muitos minutos. Enquanto seus olhos estavam fechados, ela se lembrou de que ela o havia perdido, muitos meses antes. Sua mente voltou no tempo.

- E então, vamos fazer a viagem para a estação espacial Craywon neste final de semana? - ele perguntou tentando ver a expressão dela, que mantinha-se de cabeça baixa. Após longos momentos, ela respondeu:

- Para quê? Para ver vida artificial? - ela seguiu para a outra ponta do laboratório, dando de costas para ele.

- Não somos artificiais! - ele gritou e parou no meio da sala imensa, com os braços abertos.

- Nós não, mas o que comemos, bebemos e respiramos é. Até o modo como somos gerados é artificial, e trabalhamos no Laboratório da Vida Nova, ou seja, artificial – ele suspirou e depois se aproximou dela, pegando-a pelos ombros.

- Olhe para mim – ela o encarou. - Essa é a vida que temos agora. O passado que vimos nos tera chips educacionais não existe mais. Temos sorte de estar em um planeta habitável e de estarmos vivos – desvencilhando-se de seus braços, ela se afastou dele novamente.

- Vivos?! Eu não quero esta vida sem cor… sem… sem vida – não adiantava argumentar. Fazia meses, que ela estava assim, depressiva. Ela já tinha até preenchido o formulário de Pedido de Finalização Voluntária e Assistida da Vida e estava aguardando a data ser agendada pelo Setor Finalizador, como era chamado o departamento que cuidava da morte assistida de quem entrava em depressão no planeta Centilow. Ele havia achado o formulário preenchido no casulo dela. Pediu, implorou, mas não conseguiu demovê-la da ideia.

Centilow era um planeta tão minúsculo e árido que não cabia todo mundo. Por isso os Pais Primeiros, como eram chamados os administradores, abriram o programa de Finalização e muitos se cadastraram nele porque era comum pessoas entrarem em depressão dentro da redoma, vivendo nos casulos minúsculos, sem poder ter filhos e comendo comidas sem gosto. No início da ocupação, muitas pessoas abriram mão de suas vidas para garantir vaga e comida para filhos ou pais. Foram os primeiros a serem finalizados. E agora a fila era grande.

Era certo que, caso ele não a fizesse mudar de ideia, ele a perderia. E seria para sempre. Apenas ela conseguira fazer com que a vida dele fosse suportável. Inconformado, ele dirigiu-se à cápsula de teletransporte. Sem ela, ele também desistiria. Era o sorriso dela que o fazia sorrir.

Cheio de revolta, apertou o botão da cápsula, mas como sentimentos nocivos eram sempre reprimidos, a cápsula não se ativou. Um aviso luminoso surgiu: Não polua nosso paraíso com sementes nocivas.

- Paraíso?! - pensou ele. Ela tinha razão, não era o paraíso. Nenhum paraíso usaria tera chip implantado em você para te controlar. Definitivamente, ele não queria mais se controlar. Como era possível as pessoas aceitarem a finalização voluntária como uma coisa do paraíso? Ele socou e chutou a maldita cápsula. O aviso luminoso continuava lá, tentando mandar nele. Sem que percebesse, a cápsula se fechou e abriu, mas não no setor de Alegrar a mente, onde eles passavam repetições de imagens bonitas. A porta da cápsula abriu em um lugar. Sim, sem sombra de dúvidas, aquilo não era apenas uma imagem e se era, parecia muito real e linda.

Com medo, muito medo, ele pôs o pé para fora. Havia histórias de monstros e fumaças mortais fora da redoma. Seu órgão bombeador bombeava muito rapidamente naquele momento. Ele jamais havia visto aquele lugar em nenhum dos conteúdos dos tera chips educacionais. Quando já estava a uns dez passos da cápsula, voltou correndo, como a lembrar-se de algo importante. Apertou o botão onde de memorização do quadrante. Pronto! A ligação entre o seu planeta e aquele lugar, fosse onde fosse não se perderia. A menos que um monstro aparecesse e engolisse a cápsula ou ele. Mas valia a pena o risco.

E foi assim que ambos ficaram muitos, muitos minutos admirando a pequena flor.

- É o melhor aniversário da minha vida. Nas imagens antigas tinha umas coisas coloridas, mas no nosso nunca teve nada. Mas hoje você me deu uma flor e essa coisa aqui, ela pegou um punhado de grama com as mãos. Não vamos voltar, vamos ficar aqui.

- Aqui?! - indagou ele, assustado. Mas só vimos um pequeno pedaço. Não sabemos o que tem aqui – ela se aproximou e passou as mãos pelo rosto dele. - É aqui que eu quero ficar.

- Mas vão rastrear a cápsula e nos encontrar – ela sorriu. O sorriso cheio de vida havia voltado ao rosto dela. Seus olhos brilhavam.

- Então, destruiremos a cápsula… - foi nesse momento que ambos ouviram um som novo. Parecia uma coisa chamada trovoada nas imagens antigas, mas não vinha de cima. Um segurou a mão do outro. Ela o puxou na direção do som. Ele recuou.

- Não! Pode ser um monstro – disse ele baixinho.

- Se fosse já teria engolido a gente. Só agora nos demos conta, mas ele não começou agora – ele assentiu com a cabeça. Ao chegar perto, viram algo que os deslumbrou. Uma coisa que escorria do alto e batia na pele deles. Ela se lembrou da água nas imagens e buscou em seu implante educacional. Aquilo era água, de verdade, assim como a flor. E eles beberam e se banharam, como crianças. Sorridentes como crianças. Foi então que se entreolharam. A cápsula. Precisavam destruir a cápsula antes que os rastreassem.

Após destruírem a cápsula com galhos e pedras, ela perguntou:

- E os implantes?

- Os implantes não são de rastreamento, não aqui, em outro quadrante. Somente dentro da redoma. Mas podemos tirá-los também, depois que aprendermos tudo sobre o novo planeta. Ela assentiu. E assim, a cada dia, eles descobriam coisas novas sobre o lugar que sempre sonharam encontrar. Pelo menos os implantes educacionais ajudaram quanto ao que comer, como plantar, como se abrigar. Mas um dia, eles descobriram uma coisa escrita e estava na língua atual.

ESTE PLANETA SE CHAMA TERRA. ELE ESTÁ SENDO ABANDONADO HOJE PELO ÚLTIMO GRUPO DE HABITANTES, POR ESTAR TOTALMENTE POLUÍDO E CONDENADO. NO ESPAÇO DE TEMPO ENTRE HOJE, 21 DE MARÇO DE 2094, E AS PRÓXIMAS DEZENAS DE ANOS, ELE ENTRARÁ EM ROTA DE COLISÃO COM UM ASTEROIDE GIGANTESCO, QUE O DESTRUIRÁ COMPLETAMENTE. PARTIMOS HOJE RUMO A UM NOVO MUNDO.


Coube a ele quebrar o silêncio.

- Vamos morrer, então – ela estendeu a mão para ele e respondeu.

- O que importa? Um dia aqui vale mais que mil anos lá. Eles estavam errados, tanto quanto à poluição como quanto ao asteroide. Já se passaram mais de duas centenas de anos. E olhe para isso – ela girou o braço ao redor. - Como diziam os ensinamentos antigos, sem a raça humana, o planeta se reconstruiu e reviveu. Seremos como os primeiros Pais Primeiros: eu sou Eva e você, Adão – dizendo isso, ela se abaixou e beijou um botão de flor que estava próximo.

- Feliz aniversário, Terra!

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